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Organização criminosa transportou ao menos R$ 82,8 milhões com carros-fortes em esquema de adulteração de combustível e tráfico de drogas, no PR

Laranjas recebiam ate R$ 1,5 mil em esquema envolvendo postos Em cerca de dois anos, uma organização criminosa movimentou ao menos R$ 82,8 milhões provenient...

Organização criminosa transportou ao menos R$ 82,8 milhões com carros-fortes em esquema de adulteração de combustível e tráfico de drogas, no PR
Organização criminosa transportou ao menos R$ 82,8 milhões com carros-fortes em esquema de adulteração de combustível e tráfico de drogas, no PR (Foto: Reprodução)

Laranjas recebiam ate R$ 1,5 mil em esquema envolvendo postos Em cerca de dois anos, uma organização criminosa movimentou ao menos R$ 82,8 milhões provenientes, direta e indiretamente, do esquema de adulteração de combustível e do tráfico internacional de drogas, segundo investigações da Polícia Federal (PF). As investigações apontam que a organização criminosa usava carros-fortes para transportar dinheiro vivo e ocultar a origem dele. ✅ Siga o canal do g1 PR no WhatsApp Ao longo das investigações, a PF analisou vários postos de combustíveis em Curitiba e Região Metropolitana. As investigações apontaram que o esquema acontecia de duas formas: fornecendo menos combustível do que o indicado na bomba ou aumentando a quantidade de etanol adicionado à gasolina. Em agosto de 2025, quando a operação foi deflagrada, o g1 divulgou a lista com os nomes dos postos investigados. Desde então, muitos desses postos foram vendidos para outros donos, que não são alvos da PF. Por esse motivo, a lista não consta nesta reportagem. A Justiça Federal aceitou a denúncia contra 18 pessoas envolvidas no esquema. LEIA TAMBÉM: Previsão do tempo: Paraná termina janeiro com alerta de tempestades em 97 cidades Estradas: Acidente que matou casal foi provocado por carreta que tentou fazer ultrapassagem, diz polícia Mega-Sena: Duas apostas do Paraná acertam a quina e ganham R$ 50 mil cada Como funcionava a lavagem de dinheiro? A denúncia do MPF aponta que o dinheiro proveniente de origem ilegal era colocado nos postos de combustíveis geridos pela organização criminosa. Depois, o dinheiro era coletado por carros-fortes e depositados em contas bancárias de uma empresa de tecnologia. Dessa forma, conforme a denúncia, os valores não tinham identificação de origem. Por fim, os valores eram transferidos para contas bancárias de pessoas vinculadas à organização criminosa. Conforme o MPF, entre abril de 2020 e março de 2022, foram ao menos 8.224 depósitos realizados. O diretor da instituição de pagamento foi denunciado por lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta de instituição financeira e integração de organização criminosa. Conforme o MPF, ele é filho de Ítalo Belon, réu por lavagem de dinheiro e organização criminosa. O g1 procurou a defesa de Ítalo, mas não teve resposta até a última atualização desta reportagem. Laranjas emprestavam os nomes por R$ 1,5 mil De 50 postos analisados em Curitiba e Região, 44 abasteciam menos do que o indicado na nota fiscal, aponta laudo da Polícia Federal TV Sergipe/Reprodução O uso de carros-fortes era apenas uma das camadas usadas no esquema, conforme apontado pela Polícia Federal. Postos de combustíveis – ponto inicial de colocação do dinheiro (depósitos em espécie). Empresas intermediárias/operadoras financeiras – usadas para ocultação e circulação de recursos. Empresas de topo (holdings/representações) – etapa de dissimulação e reinserção. Distribuidoras de combustíveis – usadas como integradoras finais. O esquema para adulteração de combustível e lavagem de dinheiro contava ainda com laranjas. As investigações da Polícia Federal revelaram que os criminosos abriam negócios usando os nomes de outras pessoas, que recebiam uma espécie de "mesada" de cerca de R$ 1,5 mil. O relatório final da investigação, ao qual a RPC teve acesso, aponta que os "laranjas" eram pessoas de renda baixa ou que trabalhavam informalmente. Eles emprestavam os dados para abertura de empresas, que eram usadas como fachada para lavagem de dinheiro da organização criminosa. Apesar de os postos estarem em nome de terceiros, as investigações apontaram que a operação era controlada por um grupo autointitulado "diretoria". Conforme a Polícia Federal, os investigados gerenciavam lucros, adulteração e fraudes por meio de um grupo de WhatsApp. A contabilidade do esquema era registrada em planilhas que apontavam o lucro de cada posto, assim como a distribuição do valor entre os integrantes. Um deles chegou a lucrar quase R$ 249 mil em um mês. Segundo o relatório da Polícia Federal, entre as evidências da lavagem de dinheiro, está a "quantidade colossal" de depósitos fracionados em dinheiro que os postos começaram a registrar logo depois de serem adquiridos pelo grupo criminoso, com um volume em média 187% maior, conforme a investigação. "Enquanto os postos fora do controle do grupo tiveram uma média mensal de depósitos no valor de R$ 95,6 mil por posto, aqueles sob controle dos investigados perfizeram o valor médio de R$ 276,3 mil", detalha o relatório. LEIA TAMBÉM: Redução: Após Petrobrás baixar preço de gasolina em R$ 0,14, distribuidoras reduziram valores em apenas R$ 0,05 no Paraná, diz sindicato do setor Ciência: Mais de 2,6 mil fósseis mais antigos que os dinossauros são descobertos durante obras de torres de alta tensão Hobbie: Curitibano transforma paixão de infância em coleção com mais de 100 luminárias públicas Gasolina a menos e qualidade inferior Laudo da Polícia Federal detalha resultados das amostras dos combustíveis Durante as investigações, agentes da Polícia Federal coletaram, disfarçados, as amostras de gasolina comum para a investigação. Em 46 deles a perícia comprovou algum tipo de irregularidade. Deles, 28 postos eram administrados pelo grupo criminoso. As coletas aconteceram entre os dias 26 de maio e 6 de junho de 2025. Segundo o laudo da perícia ao qual a RPC teve acesso, apenas seis das 50 amostras coletadas apresentaram a quantidade correspondente ao que estava descrito na nota fiscal fornecida pelos postos. Nos outros 44 casos, os postos forneceram menos combustível do que o indicado na bomba, com diferenças que variaram de 1% até 8,1% a menos do que o pago pelo consumidor. O Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) determina que a variação aceitável entre o volume real e o informado é de até 0,5% para mais ou para menos. Aparência dos combustíveis coletados também foi analisada Reprodução/RPC A perícia também analisou se o aspecto, o teor de etanol e a massa específica estavam dentro das especificações de qualidade determinadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A análise apontou que 28 das 50 amostras apresentaram qualidade inferior à exigida. Na análise da aparência, uma amostra foi reprovada, porque não apresentou aspecto límpido, homogêneo e isento de impurezas. Em relação ao teor do etanol adicionado à gasolina, 28 amostras apresentaram valores acima do permitido. Nesta avaliação, as amostras reprovadas tinham de 35% a 79% de álcool misturado à gasolina – na época da coleta das amostras, a quantidade máxima de etanol adicionado permitida era de 27%, com margem de variação aceitável de até 2% para mais ou para menos. Conforme as investigações, a adulteração dos sistemas acontecia, inclusive, por meio de um aplicativo, diretamente no celular. A prática, conforme a Polícia Federal, além de configurar crime, causa danos diretos aos veículos dos consumidores e aumenta artificialmente o lucro dos criminosos. A polícia decidiu não indiciar os responsáveis por seis dos postos que apresentaram inconformidades na época. Segundo o relatório, apesar de terem apresentado inconformidades relacionadas à volumetria do combustível, a Polícia Federal não identificou outros elementos que permitam concluir a intenção de estelionato por parte dos responsáveis. As irregularidades em todos os postos serão apuradas em um procedimento administrativo pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Ligação com o crime organizado Postos de combustíveis eram usados para lavagem de dinheiro RPC A investigação demonstrou que a fraude nos postos era a base de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do crime organizado. Os lucros obtidos enganando o consumidor eram injetados em uma estrutura financeira que movimentou bilhões de reais, utilizando empresas de fachada e "laranjas" profissionais para ocultar a origem ilícita dos recursos. De acordo com a PF, as investigações tiveram início em 2023, quando um homem condenado por tráfico internacional e a esposa passaram a ostentar bens de luxo em um condomínio de alto padrão em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. O casal tinha mais de R$ 34 milhões sem origem lícita comprovada aplicados em imóveis, veículos, barcos e outros artigos de luxo. Durante as apurações, os agentes descobriram que eles se associaram a integrantes de uma empresa de produtos químicos e de uma distribuidora de petróleo com sede administrativa em Pinhais e sede operacional em Paulínia (SP). Utilizando a empresa, os investigados compraram insumos como nafta e metanol, usados em misturas ilegais de combustíveis. Em 2019, criaram uma distribuidora de petróleo que entre 2020 e 2023 declarou faturamento de mais de R$ 7 bilhões. Segundo a PF, a companhia foi criada e funcionou com recursos ilícitos. A investigação apontou que essa distribuidora estava ligada a pessoas citadas em esquemas de fraude de combustíveis em São Paulo e no Rio de Janeiro, inclusive com conexões com facções criminosas. A PF explicou que a lavagem de dinheiro seguia três etapas: colocação, dissimulação e integração. Colocação: o dinheiro ilegal entrava na economia formal por depósitos em espécie, muitas vezes fracionados em pequenas transações, além de transferências feitas por empresas de fachada registradas em nome de laranjas. Dissimulação: os valores circulavam entre diferentes empresas do grupo, com simulações de operações e fraudes fiscais. Integração: os recursos voltavam ao mercado como se fossem legais, registrados em contabilidade fraudulenta da distribuidora. Ao todo, foram identificados R$ 594 milhões em depósitos em espécie sem origem comprovada. Parte do dinheiro foi disfarçada como "adiantamento de clientes" ou movimentada por postos e lojas de conveniência. Os valores eram transportados em carros-fortes de empresas de pagamento também controladas pelo grupo. Além disso: R$ 148 milhões entraram diretamente nas contas da distribuidora; R$ 203 milhões foram depositados nas contas de postos e conveniências; R$ 163 milhões foram para uma instituição de pagamentos do próprio grupo, usada como "barreira" para ocultar a origem; R$ 80 milhões foram distribuídos em contas de 13 operadoras financeiras; R$ 482 milhões vieram de empresas de fachada ligadas a São Paulo. Mais de 120 empresas suspeitas ainda transferiram cerca de R$ 1,4 bilhão sem qualquer justificativa. No total, os investigadores estimam que mais de R$ 20 bilhões tenham circulado entre 2019 e 2025 em empresas sem declarações fiscais correspondentes. Operação mira 46 postos de Curitiba por lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.