Migrações de peixes de água doce estão em colapso, aponta relatório da ONU
A piraíba, um dos maiores peixes de água doce da Amazônia, depende de rios livres para completar suas migrações. Zeb Hogan. Algumas das migrações de anim...
A piraíba, um dos maiores peixes de água doce da Amazônia, depende de rios livres para completar suas migrações. Zeb Hogan. Algumas das migrações de animais mais longas e importantes do planeta acontecem embaixo d'água e muitas delas estão entrando em colapso rapidamente. É isso o que aponta uma nova avaliação global lançada nesta terça-feira (24) durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), tratado ambiental da ONU que reúne 132 países e a União Europeia com o objetivo de proteger animais que cruzam fronteiras internacionais ao longo de seus ciclos de vida. O encontro acontece em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O relatório estima que as populações de peixes migradores de água doce caíram cerca de 81% desde 1970, tornando esse grupo um dos mais ameaçados do planeta. O documento identificou 325 espécies que precisam de ação coordenada entre países para sua conservação, além das 24 que já estavam listadas pela convenção. 🐟 Quase todas (97%) as espécies de peixes migradores já listadas pela CMS estão ameaçadas de extinção. "Esta avaliação mostra que os peixes migradores de água doce estão em sérios apuros e que protegê-los exigirá que os países trabalhem juntos para manter os rios conectados, produtivos e cheios de vida", disse Zeb Hogan, biólogo e autor principal do relatório. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Uma crise escondida sob a superfície Segundo a ONU, o relatório, elaborado por especialistas da CMS com base em avaliações da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) de quase 15 mil espécies de peixes de água doce, é a análise mais abrangente já produzida sobre o tema. O estudo detalha como o modo de vida dessas espécies as torna especialmente vulneráveis. Muitos peixes migradores, por exemplo, dependem de corredores fluviais longos e contínuos, que conectam áreas de reprodução, alimentação e berçários em planícies de inundação, muitas vezes atravessando diferentes países. 🏞️ Quando barragens, alterações no fluxo dos rios ou a degradação do habitat interrompem esses caminhos, as populações entram em queda acelerada. Justamente por isso, a avaliação destaca que populações de animais que vivem em ecossistemas de água doce estão diminuindo mais rapidamente do que populações de animais terrestres e marinhos. "Os rios não reconhecem fronteiras — e os peixes que dependem deles também não. A crise que se desenrola sob nossas vias fluviais é muito mais grave do que a maioria das pessoas percebe, e estamos ficando sem tempo", alerta Michele Thieme, vice-presidente do WWF-EUA e uma das autoras do documento. O taimen (Hucho taimen), um dos maiores salmonídeos do mundo, teve populações reduzidas na Rússia, na Mongólia e na China por pesca excessiva, degradação de habitat e construção de barragens. Zeb Hogan LEIA TAMBÉM: Entenda como explosões transformaram 'dia em noite' no Irã e colocaram cidade sob alerta de chuva ácida Calor extremo pode colocar atletas em risco em grandes eventos esportivos, alerta estudo Lado oculto da jaqueira: árvore invasora empobrece chão da Mata Atlântica e afeta sapos Amazonas e La Plata-Paraná O relatório também chama atenção para a situação de dois dos principais sistemas fluviais da América do Sul: a bacia Amazônica e o sistema La Plata-Paraná, onde a pressão sobre peixes migradores tem aumentado nos últimos anos. Na Amazônia, bioma considerado um dos últimos grandes refúgios dessas espécies, o avanço de barragens, a expansão de atividades econômicas e a degradação dos rios já aparecem como ameaças crescentes, ainda segundo a avaliação. Um estudo ligado ao relatório identificou 20 espécies migradoras que podem entrar em uma lista internacional de proteção, voltada a animais que precisam de ações conjuntas entre países para não desaparecer. E muitas dessas espécies têm peso direto na economia da região. Na Amazônia, peixes migradores de longa distância respondem por cerca de 93% da pesca e movimentam aproximadamente US$ 436 milhões por ano. Entre eles está a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), que realiza uma das maiores migrações em água doce já registradas, cerca de 11 mil quilômetros, das nascentes andinas até a foz do Amazonas. Esse tipo de deslocamento depende de rios livres e conectados, condição cada vez mais rara diante da fragmentação dos cursos d’água. A mesma dependência aparece em outras espécies, como a piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), presente na Amazônia e no Orinoco, e que também sofre com a interrupção desses corredores naturais. Já na bacia do La Plata, o cenário é semelhante. O relatório aponta que espécies como o surubim (Pseudoplatystoma corruscans) enfrentam pressões combinadas de barragens, alterações no fluxo dos rios e aumento da pesca, o que também tem reduzido suas populações. Dourado registrado no rio Paraná, onde a espécie tem importância ecológica e econômica para a pesca. Zeb Hogan Espécies em risco no mundo O relatório lista ainda 325 espécies que podem entrar em esquemas de proteção internacional. A maior parte está na Ásia, seguida pela América do Sul, Europa e África. Entre os casos mais críticos fora da América do Sul estão o esturjão-beluga, do Danúbio e do Mar Cáspio, e o bagre-gigante do Mekong, ambos sob alto risco de extinção. Na Europa, a enguia-europeia já é considerada criticamente ameaçada, com queda drástica nas populações nas últimas décadas. Para tentar conter esse declínio, o documento defende medidas como a proteção de rotas de migração, a gestão conjunta da pesca e ações coordenadas entre países que compartilham os mesmos rios. Segundo a CMS, esse tipo de cooperação é essencial: mais de 250 rios e lagos no mundo cruzam fronteiras, e quase metade do planeta está em bacias hidrográficas compartilhadas.