Como funcionava esquema de agiotagem no AM que repassava dívidas entre grupos para manter ciclo de extorsão
Prisão do tenente da Aeronáutica que comandava um dos grupos de agiotagem no AM Um esquema de agiotagem que envolvia empréstimos com juros abusivos, ameaças...
Prisão do tenente da Aeronáutica que comandava um dos grupos de agiotagem no AM Um esquema de agiotagem que envolvia empréstimos com juros abusivos, ameaças e até a tomada de bens de vítimas é alvo da segunda fase da Operação Tormenta, deflagrada nesta terça-feira (14) pela Polícia Civil do Amazonas. Segundo as investigações, diferentes grupos atuavam de forma integrada, criando um ciclo contínuo de dívidas e extorsões. Entre os presos está o tenente da Aeronáutica Caique Assunção dos Santos, apontado como líder de um dos grupos. De acordo com a polícia, ele mantinha ligação com outros núcleos do esquema, que, juntos, teriam movimentado mais de R$ 150 milhões. Segundo a polícia, os investigados ofereciam empréstimos clandestinos com juros que podiam aumentar as dívidas em mais de 50% ao mês. As principais vítimas eram servidoras públicas, especialmente mulheres que atuam em órgãos como o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM). 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Após a liberação do dinheiro, começava a fase de cobrança. As vítimas passavam a ser pressionadas com ameaças constantes e, quando não conseguiam pagar, tinham bens tomados, como carros, joias, eletrônicos e até imóveis. Ainda conforme as investigações, os suspeitos também recolhiam documentos pessoais e cartões bancários, chegando a controlar aplicativos financeiros para retirar dinheiro diretamente das contas das vítimas. Dívidas eram repassadas entre grupos Um dos principais mecanismos do esquema, segundo a polícia, era o repasse das dívidas entre diferentes grupos de agiotas. Quando um grupo encontrava dificuldade para receber os valores, a dívida era transferida para outro núcleo, que intensificava as cobranças e aplicava novos juros. "São diversos grupos de agiotas que, interligados entre si, realizavam cobranças de juros excessivos, extorsões e até roubos", afirmou o delegado Cícero Túlio, titular do 1º DIP. Com isso, as dívidas continuavam a crescer, mantendo as vítimas no ciclo de cobrança. Violência e intimidação As investigações apontam que o grupo utilizava ameaças para garantir os pagamentos. Há registros de intimidações, incluindo ameaças de morte e de sequestro de familiares. Em áudios obtidos com exclusividade pela Rede Amazônica, na primeira fase da operação, um dos suspeitos ameaçou sequestrar o filho de uma das vítimas. "Pô, cara, tu não tem palavra mesmo não, né? Se tu não tem palavra, eu tenho. Entendeu? Vou mandar sequestrar teu filho hoje. Eu vou querer meu valor, tudinho que eu te emprestei, entendeu? Valor integral. Já esperei muito. Quando eu falo, eu cumpro as coisas que eu falo, entendeu? Diferente de você, porque você não tem palavra", afirmou. A vítima relatou que fez um empréstimo de R$ 5 mil, mas a dívida evoluiu para valores muito superiores. Ela afirmou ter perdido dois imóveis e um carro. RELATO: Vítima de grupo preso por agiotagem no AM revela intimidações e ameaças frequentes; 'vou sequestrar teu filho' Esquema continuou após prisões Na primeira fase da operação, realizada em fevereiro, seis pessoas foram presas. Também foram apreendidos armas, dinheiro, documentos e cerca de 30 veículos de luxo. Mesmo assim, segundo a polícia, o esquema continuou funcionando. Integrantes que não foram presos passaram a atuar como intermediários, mantendo as cobranças, ameaças e movimentação financeira. "Durante a primeira fase da Operação Torment, a gente conseguiu retirar parte dessa organização criminosa de circulação e mesmo com sete pessoas presas, eles continuaram e ainda debocharam da atuação da polícia e do Poder Judiciário", explicou Cícero. Lavagem de dinheiro Para ocultar a origem dos valores, o grupo utilizava empresas de fachada. Pelo menos seis tiveram bloqueios financeiros nesta nova fase. Uma delas, ligada a investigados da primeira etapa, movimentou mais de R$ 3,3 milhões, segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Prisões e investigação Ao todo, cinco pessoas foram presas na 2ª fase da operação. Além do tenente, outros quatro suspeitos foram detidos: Ronan Benevides Freire Massulo, Alexsandro Carneiro Capote, Carlos Augusto da Silva Freitas e Dionas Pereira de Souza. Com o militar, foram apreendidos arma de fogo, munições, documentos, equipamentos eletrônicos e um veículo. O g1 tenta localizar a defesa dos suspeitos. Também entrou em contato com a Força Aérea Brasileira (FAB), mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem. Arma de fogo e munições apreendidas com Tenente da Aeronáutica preso em operação contra agiotagem no AM Divulgação/PC-AM A Polícia Civil ainda procura seis investigados que seguem foragidos. São eles: Igor Francys Costa do Cazal, conhecido como "Alemão"; Francisco Miguel Ferreira Neto; Gilmar Silva de Souza; Bruno Luan Oliveira Vasquez; Gustavo da Silva Albuquerque; Marco Aurélio de Morais Pinheiro Júnior. Os investigados podem responder por crimes como associação criminosa, agiotagem, extorsão, roubo majorado, falsidade ideológica, porte ilegal de arma de fogo e lavagem de dinheiro. Agiotagem e extorsão a servidores do Tribunal de Justiça do Amazonas