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Cida Moreira canta Angela Ro Ro com a devoção dos loucos e poetas que não abrem concessão

Cida Moreira estreia no Manouche, no Rio de Janeiro (RJ), o show 'Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro' Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título...

Cida Moreira canta Angela Ro Ro com a devoção dos loucos e poetas que não abrem concessão
Cida Moreira canta Angela Ro Ro com a devoção dos loucos e poetas que não abrem concessão (Foto: Reprodução)

Cida Moreira estreia no Manouche, no Rio de Janeiro (RJ), o show 'Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro' Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro Artista: Cida Moreira Data e local: 31 de janeiro de 2026 no Manouche (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ Após o abrir o show “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro” tocando ao piano “Demais” (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959), moderno samba-canção gravado por Ro Ro em 1982 e sempre cantado por ela em shows como símbolo do amor intenso que gerou excessos na vida louca vida da artista, Cida Moreira começou a cantar um lado B do cancioneiro autoral de Ro Ro, “Devoção”, joia do segundo álbum da cantora, “Só nos resta viver” (1980). “Sempre é hora de brotar canções / Confessar paixões exiladas / ... / Todo dia nova fantasia / O real que cria sonho e ilusão / Devoção de um poeta e louco / Que não abre concessão”, cantou Cida. Ali, naqueles versos, estavam a senha para o entendimento do show que estreou na noite de ontem, 31 de janeiro, no clube Manouche, no Rio de Janeiro (RJ), com tamanha adesão do público que a casa programou sessões extras para hoje, 1º de fevereiro, e para 11 e 12 de fevereiro (a estreia em São Paulo é na próxima quarta-feira, 4 de fevereiro, na Casa de Francisca). A poesia e a loucura dos que não abrem concessão sempre afinaram as trajetórias paralelas da carioca Angela Maria Diniz Gonsalves (5 de dezembro de 1949 – 8 de setembro de 2025) e da paulistana Maria Aparecida Guimarães Campiolo, dama dos cabarés. Amigas desde 1978, as cantoras já dividiram palcos desde o início das respectivas trajetórias profissionais na segunda metade da década 1970. Voz operística associada à Vanguarda Paulista dos anos 1980, Cida adensou o canto em carne viva ao longo da trajetória em evolução nítida quando se compara a gravação de “Gota de sangue” (1979) feita pela artista no álbum de estreia “Summertime” (1981) – registro ao vivo do show que a revelou, “Summertime – Um show pra inglês ver” (1979 /1980) – com a interpretação precisa da canção ouvida ontem no palco do Manouche. Cida Moreira canta sucessos, mas também músicas menos conhecidas de Angela Ro Ro (1949 – 2025), como 'Devoção' e 'Karma secular' Rodrigo Goffredo Cida Moreira sempre cantou Angela Ro Ro muito bem, mas é como se somente agora, com a amiga já em outra dimensão, a dama do cabaré estivesse pronta e plena para esse mergulho mais (pro)fundo no cancioneiro composto por Ro Ro com a poesia e as tristezas que o amor lhe deu. Idealizado pela filha de Cida, Júlia Porto, o show já nasceu bonito, mas a estreia transcorreu tensa, de início pelo assumido nervosismo de Cida e, momentos depois, pela irritação da cantora com espectadora sentada na primeira fila e identificada pela cantora como espécie de stalker que já provocara “shows estragados em São Paulo”, nas palavras de Cida. O clima ficou pesado, mas a espectadora foi embora com o enfrentamento da cantora diante do público e, aos poucos, foi restaurada a normalidade no palco e na plateia. Depois, mais calma, Cida pediu desculpas ao público pelo que caracterizou como “desabafo” (“Quando a vi, perdi o rebolado”, admitiu) e até repetiu a canção “Tola foi você” (1979) porque avaliou que tinha cantado mal a música da primeira vez. Guiada sobretudo pela poesia da música de Angela Ro Ro, a intérprete se permitiu incluir no roteiro uma ou outra canção menos aliciante, como “Karma secular” (1986). Em todas as músicas, hits ou não, a estreia do show evidenciou que Cida Moreira não faz cover de Angela Ro Ro. Em cada interpretação, houve um toque pessoal da cantora. Nem que fosse uma inflexão peculiar, como ao fim de “Amor, meu grande amor” (Angela Ro Ro e Ana Terra, 1979). “Balada da arrasada” (1979), por exemplo, tangenciou a passionalidade de um tango, não no canto, mas na cadência do piano de Cida. Já o pulso de “Compasso” (Angela Ro Ro e Ricardo MacCord, 2006) foi outro. Se “Me acalmo danando” (1979) ressurgiu sublime no canto de Cida, inclusive pelo fato de a música já ser há anos cantada pela artista e de ter sido inclusive gravada no álbum “A dama indigna” (2011), outras – como “Mares de Espanha” (1979) e “Não há cabeça” (1979) – deixaram a sensação de que soarão ainda mais refinadas no canto de Cida quando o show atingir a plenitude na estrada (já há apresentações agendadas até abril) sem as tensões da estreia. De toda forma, ouvir Cida Moreira cantar “A mim e a mais ninguém” (1979) foi testemunhar o arrebatamento de uma intérprete gigante pela beleza da poesia de uma compositora que se revelou igualmente grande no período que foi de 1979 a 1984. Cida Moreira volta ao Manouche com o show 'Me acalmo danando' nos dias 1º, 11 e 12 de fevereiro Rodrigo Goffredo Cida Moreira sempre ardeu na chama da paixão com que Angela acendeu canções como “Fogueira” (1983). E a paixão da intérprete pela palavra da compositora é tamanha que Cida costurou o roteiro do show com a récita de textos de duas músicas de Angela Ro Ro, “Solitários interplanetários” (1985) e “Sistema” (1983, parceria com Mário de Oliveira), além de ter abolido quase toda a melodia de “Cobaias de Deus” (1989), optando por cantar a letra de forma quase falada (exceto no refrão) para evidenciar os versos de Cazuza (1958 – 1990), parceiro de Angela nessa canção em que o poeta delira diante da finitude iminente. Além de ter cantado “Escândalo” (1981), presente sensível de Caetano Veloso para Angela Ro Ro em período de desatino da artista, Cida Moreira teve a sagacidade de fechar o show, antes do bis, com o refrão de “Perfeição” (1993) porque percebeu que o autor da letra verborrágica dessa canção do repertório da banda Legião Urbana, Renato Russo (1960 – 1996), era da mesma tribo sensível de Ro Ro. No bis, a dama do cabaré fez a voz maturada ir do grave ao agudo no canto de “Summertime” (George Gershwin, Ira Gershwin e DuBose Heyward, 1935), standard norte-americano do jazz que integrou por décadas os repertórios de Angela Ro Ro e Cida Moreira e que muitas vezes foi interpretado em dueto por essas duas artistas, ambas pianistas, ambas grandes intérpretes, irmãs no canto de paixões exiladas pelo real que cria sonho e ilusão. Almas e vozes irmanadas pela devoção aos poetas e loucos que não abrem concessão. Cida Moreira se acompanha ao piano no canto de músicas do repertório de Angela Ro Ro (1949 – 2025) Rodrigo Goffredo ♪ Eis o roteiro seguido em 31 de janeiro de 2026 por Cida Moreira na estreia nacional do show “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro” no clube Manouche, no Rio de Janeiro (RJ): 1. “Demais” (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959) – número instrumental ao piano 2. “Devoção” (1980) 3. “Tola foi você” (1979) 4. “Karma secular” (1986) 5. “Compasso” (Angela Ro Ro e Ricardo MacCord, 2006) 6. “Balada da arrasada” (1979) 7. “Me acalmo danando” (1979) 8. “Mares de Espanha” (1979) 9. “Solitários interplanetários” (1985) – récita da letra da música 10. “Não há cabeça” (1979) 11. “A mim e a mais ninguém” (1979) 12. “Gota de sangue” (1979) 13. “Fogueira” (1983) 14. “Amor, meu grande amor” (Angela Ro Ro e Ana Terra, 1979) 15. “Sistema” (Angela Ro Ro e Mário de Oliveira, 1983) – récita da letra da música 16. “Escândalo” (Caetano Veloso, 1981) 17. “Tola foi você” (1979) – reprise 18. “Cobaias de você” (Angela Ro Ro e Cazuza, 1989) 19. “Perfeição” (Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, 1993) Bis: 20. “Summertime” (George Gershwin, Ira Gershwin e DuBose Heyward, 1935) Cida Moreira apresenta o show 'Me acalmo danando' na Casa de Francisca, em São Paulo (SP), na próxima quarta-feira, 4 de fevereiro, e em 25 de fevereiro Rodrigo Goffredo